domingo, 14 de dezembro de 2008

DARLY DIZ QUE CHICO MENDES FOI CULPADO PELA PRÓPRIA MORTE

Chico Araújo - Agência Amazônia

Chico Mendes foi o responsável pela sua própria morte. Foi o que garantiu hoje, em entrevista ao Fantástico, da TV Globo, o fazendeiro Darly Alves da Silva, oito dias antes do assassinato do líder sindical e ecologista. Darly e o filho dele, Oloci Alves, foram condenados a 19 anos de prisão, em 1990, pelo assassinato de Chico Mendes.

O fazendeiro foi acusado de ser o mandante do crime e seu filho, o executor. Mendes foi morto no dia 22 de dezembro de 1988 com um tiro de espingarda no quintal da casa dele, em Xapuri.

“Chico Mendes ninguém matou, quem se matou foi ele mesmo”, disse Darli, ao ser entrevistado pelo repórter Ernesto Paglia. A entrevista aconteceu na fazenda Paraná, na BR-317, a 25 quilômetros de Xapuri (AC), onde Darly cumpre prisão domiciliar.
Ao Fantástico, Darli repetiu a versão que sustenta há anos. Disse ter sido usado como “bode expiatório” pela morte de Chico Mendes. Foi o que Darly também afirmou ao blog do jornalista Raimari Cardoso, de Xapuri, no início deste mês ao referir-se acerca do assunto. Afirmou sentir-se “injustiçado pela Justiça dos homens”, Darly desabafou: “Eu paguei pelo que não devo. No caso do Chico Mendes me pegaram para bode expiatório e me condenaram por causa da pressão da mídia e dos órgãos internacionais. A lei dos homens não foi justa comigo, mas a Deus será”.

Da fazenda Paraná, uma área de três mil hectares e milhares de cabeças de boi, Darly Alves diz que precisa de espaço na mídia para dar sua versão sobre a morte de Chico Mendes, ocorrida há 20 anos. Confessou a Raimari que gostaria de ver sua história contada em livro. “Quero contar minha verdadeira história e ganhar algum dinheirinho com isso”.

Acerca da fama de homem violento, adquirida bem antes das ameaças à vida do líder sindical Chico Mendes, o fazendeiro Darly Alves nega veementemente. Ele garante ser uma pessoa tranqüila e de paz. “Nunca andei armado e nem ando hoje em dia”.

Com relação aos problemas com Chico, reiterou que nunca teve diferenças graves com o seringueiro. “Nunca tive problema sério com ele, nem tinha nada contra o trabalho dele. A questão foi a liminar que a Justiça me deu para derrubar umas árvores no seringal Cachoeira e que ele fez um empate lá. Eu retirei a liminar pensando dele ficar meu amigo”.

Fantástico volta à terra de Chico Mendes 20 anos depois

Acusado da morte do seringueiro revela outra versão dos fatos.

Vinte anos depois, o Fantástico volta à terra onde foi assassinado o líder seringueiro famoso no mundo inteiro que travava uma luta em defesa do meio ambiente. O repórter Ernesto Paglia conversou com as pessoas que ajudam a manter viva a floresta e a memória de Chico Mendes e encontrou o homem condenado como mandante do crime.

Caminhar na floresta bota as coisas em perspectiva. Seu Sebastião, primo-irmão de Chico Mendes, é guardião de uma história que acabou em tragédia. Tudo por causa deste chão: o seringal cachoeira que fica no município de Xapuri, no Acre.

Fantástico - Quer dizer, hoje isso aqui era para ser pasto?

Sebastião Mendes - Hoje isso aqui era só pasto e boi.

E o senhor prefere assim?

-Eu prefiro a floresta, porque tem a caça, tem o peixe, tem o passarinho, o papagaio, o tucano, e o seringueiro hoje vive na sua matinha dele feliz da vida, muito melhor que na cidade, que não tem emprego.

Por essa vida de seringueiro, morreu Chico Mendes. Líder sindical, Chico brigou quase dez anos contra a derrubada da floresta para fazer pasto.

“Hoje, nós vivemos em uma situação muito difícil, que não é mais uma questão local, mas sim uma questão nacional”, disse Chico Mendes, em discurso.

O desmatamento acabava com as árvores. Mais do que isso, para os seringueiros, ele significava a expulsão do paraíso de onde tiravam o sustento: a seiva, o látex, matéria-prima da borracha natural.

Os seringueiros não eram donos da terra – trabalhavam na mata com autorização do fazendeiro, em troca de parte da produção. Quando os proprietários venderam a área para criadores de gado, vindos do Sul, começou a briga.

A turma de Chico Mendes inventou o "empate". Os seringueiros e suas famílias entravam na mata, confiscavam motosserras, faziam de tudo para impedir o trabalho do pessoal do fazendeiro.

O outro lado também estava decidido e reagia com violência. Ao longo do ano de 1988, vários sindicalistas foram assassinados em Xapuri. Em dezembro de 1988, Chico entrou na alça de mira dos matadores.

“Ele foi abrindo uma porta, pode ver que ainda há marcas de sangue. Ele foi atingido logo que saiu. Quando abriu a porta, se apoiou. Ainda tem marcas de sangue. Nós não mexemos na parede”, conta Elenira Mendes, filha do seringueiro.

Aos 44 anos, Francisco Mendes morreu sem chance de socorro. Deixou mulher e dois filhos. A polícia prendeu o fazendeiro Darly Alves da Silva e seu filho, Darcy. A Justiça acusou o pai de ser o mandante do crime e o filho de ser o executor. Ambos foram condenados a 19 anos de cadeia.

Vinte anos depois do assassinato de Chico Mendes, 18 anos depois da sentença que condenou seus assassinos ser emitida pelo tribunal, voltamos a Xapuri e encontramos os personagens dessa tragédia. O clima entre eles continua sendo de muita tensão.

Darly e Darcy Alves da Silva, depois de fugir e serem recapturados, cumpriram suas penas e voltaram para Xapuri. Encontramos Darly em uma fazenda, a 14 quilômetros da cidade.
Pego de surpresa, ele começou mandando desligar a câmera. Depois, botou pra fora o que pensa de Chico Mendes. "Eu fico insultado porque o homem não valia nada. Ele nunca foi seringueiro, o homem nunca trabalhou. Nunca pagou imposto”, afirma Darly.

Darly continua negando o crime, se diz injustiçado na terra, confia na Justiça dos céus e culpa a vítima pela própria morte. "O matador não é quem puxa o dedo, é quem provoca a morte. Ninguém matou Chico Mendes. Quem se matou foi ele mesmo, provocou a morte dele. Não porque ele mexeu só comigo, ele mexeu com todo mundo”, ele diz.

A menina que tinha 4 anos quando Darly mandou matar Chico Mendes seguiu a carreira que o pai sonhava: virou advogada. Elenira Mendes comanda a fundação que leva o nome do ambientalista. Preserva a memória de Chico fazendo trabalho social em Xapuri. Serena, ela não guarda rancor dos matadores do seu pai.

"Eu não tenho nenhum ressentimento contra Darly, contra sua família, porque eu sei que a Justiça de Deus é maior do que a Justiça do homem", avalia.

Xapuri, hoje com 15 mil habitantes, é a cidade de Chico Mendes. A placa na estrada anuncia isso. O museu da fundação relembra. O sindicato que Chico ajudou a criar foi esvaziado. O preço do látex anda baixo e os produtores se afastaram, mas a consciência de que é preciso preservar fez brotar outras oportunidades.

Uma beneficiadora de castanhas surgiu para limpar e embalar, pelo menos, parte da produção de Xapuri. A moderna fábrica de preservativos, feitos de látex natural, já está em fase de testes. Promete absorver, pelo menos, 10% da borracha produzida no Acre.

Até o seringal Cachoeira, berço da luta do seringueiro, também já investiu numa pousada para o ecoturismo. Chico Mendes morreu em Xapuri. E, lá mesmo, continua vivo.

Nenhum comentário: